O Dia dos Namorados mobiliza campanhas publicitárias, vitrines decoradas e uma intensa produção de conteúdos que celebram o amor romântico. Embora a data seja marcada por demonstrações de afeto, carinho e companheirismo, ela também pode despertar sentimentos de não pertencimento em muitas pessoas solteiras.
Desde cedo, somos expostos a narrativas que reforçam a busca pela “cara-metade”. Nesse contexto, quem está solteiro pode ser visto como alguém que ainda não alcançou uma etapa importante da vida, independentemente de suas realizações pessoais, profissionais ou sociais.
A completude não depende necessariamente de um relacionamento amoroso. A identidade de uma pessoa é construída por múltiplas dimensões, incluindo amizades, vínculos familiares, projetos de vida, desenvolvimento profissional, interesses culturais e autoconhecimento. Reduzir a felicidade à existência de um parceiro afetivo significa desconsiderar a complexidade das relações humanas e das diferentes formas de viver.
Para Freud, somos seres da falta, então encontrar um outro não significa estar completo, e sim é dar conta disso e compreender nossas relações de forma de encontro e não como completude. É importante distinguir solidão de solitude. A solidão refere-se ao sofrimento decorrente da ausência ou insuficiência de conexões significativas. Já a solitude representa a capacidade de estar consigo mesmo de maneira satisfatória, encontrando prazer e significado na própria companhia. Estar solteiro não implica necessariamente estar sozinho, assim como estar em um relacionamento não garante ausência de solidão.
A Psicologia tem mostrado que o bem-estar está muito mais relacionado à qualidade das relações interpessoais do que ao estado civil em si. Pessoas solteiras podem construir redes de apoio sólidas, desenvolver autonomia emocional e experimentar elevados níveis de satisfação com a vida.
Talvez a pergunta que precisemos fazer não seja porque alguém está solteiro, mas porque ainda insistimos em acreditar que uma pessoa só está completa quando encontra outra. Enquanto mantivermos essa lógica, continuaremos ignorando que a plenitude humana pode ser vivida de muitas maneiras, e que nenhuma delas deveria ser considerada superior às demais.
Leidiana Silva
Psicóloga, professora do curso de Psicologia da Estácio
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