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Será que o brasileiro só é brasileiro na Copa?

Artigo do professor de História da Estácio, Rodrigo Rainha.

10/06/2026 14h56
Por: Dani Cardoso
Será que o brasileiro só é brasileiro na Copa?

Todo brasileiro conhece alguém que passa quatro anos reclamando do país e, na Copa, aparece de camisa amarela, corneta na mão, rosto pintado e opinião tática sobre a lateral-direita da seleção. É um fenômeno nacional. O sujeito não sabe o nome do ministro da Educação, mas sabe que o problema do Brasil é jogar com dois volantes. Não acompanha política pública, mas acompanha coletiva de técnico. Não lembra onde guardou o título de eleitor, mas sabe exatamente onde está a figurinha rara do Neymar.

A pergunta, então, é inevitável: será que o brasileiro só é brasileiro na Copa?

Calma. Antes que alguém se ofenda e diga que isso é complexo — e é mesmo —, vamos lembrar que a própria ideia de Brasil sempre foi meio complicada. O Brasil é um país que passou séculos tentando convencer pessoas muito diferentes, desiguais e muitas vezes violentadas pelo próprio Estado de que todas faziam parte da mesma comunidade. Não era tarefa fácil. Para o indígena expulso da terra, para o negro escravizado, para o trabalhador explorado, para a mulher sem direitos políticos, para o pobre sem escola, essa conversa de “nação” muitas vezes parecia discurso bonito vindo de cima.

José Murilo de Carvalho, ao falar dos “bestializados” da República, mostrou como o povo assistiu a grandes mudanças políticas sem necessariamente participar delas como protagonista. A República foi proclamada, a bandeira mudou, o hino tocou, os marechais desfilaram, mas a cidadania continuou estreita. O Brasil oficial sempre teve uma certa mania de dizer “somos todos brasileiros” antes de perguntar quem, de fato, tinha direito a viver como brasileiro.

A Copa, porém, tem uma esperteza danada. Ela não pede certidão de nascimento simbólica. Ela chega com bola, camisa, música, feriado informal, churrasco improvisado, televisão ligada e um grito simples: “Vai, Brasil!”

Pronto. Lá estamos nós, os bestializados do impedimento.

E veja: não digo isso como ofensa. Digo quase com carinho. Porque talvez a Copa seja um dos poucos momentos em que a abstração chamada Brasil desce do palanque e entra na sala de casa. O Estado pode ser distante, a política pode parecer confusa, a economia pode ser cruel, mas a seleção aparece na tela e oferece uma forma imediata de pertencimento.

Durante a Copa, o Brasil fica mais fácil de entender. O inimigo tem camisa de outra cor. O tempo tem noventa minutos. A injustiça se chama VAR. O drama tem replay. O herói pode ser escalado. O vilão pode ser xingado. A esperança tem tabela. A tragédia tem data. A vida nacional, que geralmente é uma bagunça sem súmula, ganha começo, meio e fim.

Não é pouca coisa.

O problema é quando começamos a achar que isso basta. Que ser brasileiro é torcer de quatro em quatro anos, comprar camisa, pintar rua, discutir escalação e sofrer nos pênaltis. É bonito, mas é pouco. Ser brasileiro só na Copa é como visitar a própria casa apenas no Natal: emociona, dá fotografia, tem comida, mas não resolve o vazamento da cozinha.

O nacionalismo tem esse lado sedutor. Ele dá abrigo. Ele diz: você pertence. Você tem um povo. Você tem uma história. Você tem uma bandeira. Você tem uma casa no mundo. Em tempos de medo, isso é poderoso. Quando viramos imigrantes, por exemplo, muitas vezes descobrimos com mais força quem somos. Longe de casa, o arroz com feijão vira memória. O sotaque vira identidade. A música vira território. A camisa da seleção vira endereço emocional.

Quem está fora sabe: às vezes o Brasil aparece inteiro numa conversa em português no metrô de outro país. Aparece num samba ouvido baixinho. Aparece numa feijoada improvisada. Aparece no espanto de perceber que a palavra “saudade” não é folclore; é documento.

O nacionalismo nasce muito dessa necessidade de proteção. Quando estamos ameaçados, quando somos minoria, quando somos estrangeiros, quando somos empurrados a explicar quem somos, a identidade nacional pode funcionar como casaco. Ela aquece. Protege. Dá contorno.

Mas todo casaco pode virar armadura.

E aí mora o perigo. O nacionalismo, quando adoece, vira uma lógica de guerra. Passa a precisar de inimigos para existir. Passa a desconfiar de qualquer diferença. Passa a dizer que há brasileiros mais brasileiros do que outros. Passa a medir patriotismo por volume de grito, tamanho da bandeira, obediência política ou capacidade de odiar o país vizinho.

É nessa hora que a brincadeira fica séria. Porque a mesma energia que faz uma rua cantar pode fazer uma multidão perseguir. A mesma bandeira que emociona pode intimidar. A mesma frase “meu país” pode significar cuidado ou posse.

Por isso, precisamos rir um pouco de nós mesmos, mas sem desligar o alarme.

O brasileiro tem mesmo essa mania de redescobrir a nacionalidade em ano de Copa. Passa quatro anos dizendo “esse país não tem jeito” e, de repente, está calculando saldo de gols como quem interpreta o destino da civilização ocidental. Reclamamos da convocação como se fosse reforma ministerial. Chamamos o técnico de burro com a segurança de quem resolveria a economia nacional em duas substituições. Exigimos raça, toque de bola, intensidade, alegria, disciplina, improviso e, se possível, um lateral que saiba cruzar.

Somos um povo impossível até para nós mesmos.

Mas talvez haja aí uma pista importante. A Copa mostra que ainda existe desejo de coletividade. Mesmo ferido, mesmo desconfiado, mesmo polarizado, o brasileiro ainda procura uma cena em que possa dizer “nós”. O problema é que esse “nós” aparece mais facilmente no futebol do que na cidadania.

A pergunta, portanto, não é se o brasileiro só é brasileiro na Copa. A pergunta é por que, fora da Copa, tantos brasileiros não se sentem tratados como parte do Brasil.

Porque o Brasil da camisa é generoso. Cabe todo mundo na torcida, pelo menos em tese. Já o Brasil real costuma selecionar melhor seus convidados. Há brasileiros que entram pela porta da frente e brasileiros que entram pela cozinha. Há brasileiros que herdam patrimônio e brasileiros que herdam dívida. Há brasileiros que são protegidos pela polícia e brasileiros que têm medo dela. Há brasileiros que falam em mérito com sobrenome antigo e brasileiros que precisam provar humanidade todos os dias.

A Copa suspende essa desigualdade? Não. Mas a encobre por alguns instantes com uma camada de emoção comum. E talvez por isso ela seja tão viciante. Ela nos dá uma amostra grátis de pertencimento.

O desafio é transformar essa amostra em compromisso.

Ser brasileiro na Copa é fácil. Difícil é ser brasileiro na fila do SUS, na reunião da escola, no ônibus lotado, na defesa da democracia, na preservação da memória, no respeito ao vizinho, na escuta de quem pensa diferente, no combate ao racismo, na proteção dos povos indígenas, na valorização da professora, no cuidado com a cidade, no enfrentamento da desigualdade.

Patriotismo bom não é aquele que só aparece quando a bola entra. É aquele que aparece quando a vida aperta.

Ainda assim, não sejamos rabugentos demais. A Copa tem sua graça. Tem sua pedagogia. Tem seu ridículo maravilhoso. Há algo profundamente brasileiro em sofrer antes da hora, reclamar depois, prometer nunca mais assistir e, quatro anos mais tarde, estar de novo diante da televisão dizendo: “dessa vez vai”.

Talvez sejamos brasileiros também por isso: porque insistimos.

Insistimos na festa, mesmo com a conta atrasada. Insistimos na esperança, mesmo com a história pesando. Insistimos no riso, mesmo depois do 7 a 1. Insistimos em discutir escalação como se fosse filosofia política. Insistimos em acreditar que, em algum momento, o país pode encaixar.

No fundo, a Copa não prova que o brasileiro só é brasileiro de quatro em quatro anos. Ela prova que existe uma vontade de Brasil que sobrevive aos nossos próprios fracassos.

A questão é educar essa vontade. Tirar dela a doença da guerra, da pureza e da exclusão. Fazer com que o nacionalismo não vire febre autoritária. Fazer com que a identidade não seja muro, mas ponte. Fazer com que a proteção não vire agressão. Fazer com que a bandeira volte a ser pano comum, não cerca elétrica.

Ser brasileiro na Copa é gostoso.

Ser brasileiro depois da Copa é que é o desafio.

E talvez seja justamente aí que a história começa a ficar interessante.

 

Por Rodrigo Rainha, professor de História da Estácio.

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