O pão, o circo e a Semana Santa
Há algo de profundamente contraditório nas cenas que se repetem, ano após ano, em diversas cidades da Bahia — e que, mais uma vez, se evidenciam também em Paulo Afonso. Em plena Semana Santa, período que deveria evocar reflexão, humildade e transformação interior, assistimos à teatralização da caridade: políticos distribuindo peixes de porta em porta, com câmeras estrategicamente posicionadas para capturar lágrimas, sorrisos e gratidão.
Mas não nos enganemos. Isso não é solidariedade — é espetáculo.
A Bíblia é clara ao tratar da verdadeira essência da doação. Em Evangelho de Mateus 6:3, Jesus ensina: “Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita.” Ou seja, o bem deve ser feito em silêncio, sem plateia, sem marketing, sem interesse oculto. A caridade exibida perde seu valor espiritual e se transforma em moeda política.
O que se vê, no entanto, é o oposto do ensinamento de Cristo: a instrumentalização da pobreza. O alimento que deveria saciar a fome imediata torna-se ferramenta de promoção pessoal. A dor alheia vira conteúdo. A necessidade vira narrativa.
E pior: cria-se a ilusão de cuidado, enquanto a realidade estrutural segue abandonada.
Não há, em toda a Escritura, qualquer respaldo para a lógica de dependência. Pelo contrário. Em Segunda Epístola aos Tessalonicenses 3:10, está escrito: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma.” A mensagem aqui não é de punição, mas de responsabilidade e dignidade: o sustento deve vir do esforço, da oportunidade, da construção de caminhos — não de esmolas periódicas.
Jesus nunca pregou a acomodação. Ele transformava vidas, não apenas momentos.
No caso específico de Paulo Afonso, a incoerência salta aos olhos. Como justificar milhões investidos em festas, cultura — e aqui não se critica a cultura, mas sim a inversão de prioridades — e até 5,97 milhões em estátuas, enquanto falta um plano concreto e eficaz para geração de emprego?
Onde está o parque industrial prometido? Onde estão as políticas públicas com metas, prazos e compromisso real com o desenvolvimento econômico?
Dar o peixe, uma vez por ano, não resolve. Ensinar a pescar (empregos) — e mais do que isso, garantir acesso ao rio (incentivo as empresas)— é o que transforma realidades. É isso que promove dignidade. É isso que honra o cidadão.
O restante é encenação.
A própria Bíblia também nos alerta sobre aqueles que usam da aparência para enganar. Em Evangelho de Mateus 7:15, Jesus adverte: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores.” A descrição parece escrita para os dias de hoje: discursos doces, gestos calculados e intenções distantes do bem comum.
A população não precisa de favores pontuais. Precisa de respeito.
Precisa de políticas públicas que gerem emprego, que incentivem empresas locais, que fortaleçam o comércio, que mantenham a riqueza circulando na própria cidade. Chega de ver recursos escoando para fora enquanto o povo permanece refém de ações assistencialistas e eleitoreiras.
É preciso romper com esse ciclo.
A Semana Santa não pode ser reduzida a um palco de oportunismo. Ela é, antes de tudo, um chamado à coerência entre fé e prática. E isso vale para todos — inclusive, e principalmente, para aqueles que ocupam cargos públicos.
Até quando aceitaremos o pão e o circo?
A população de Paulo Afonso não quer migalhas. Quer dignidade, trabalho e futuro.
E isso não se entrega em sacolas — se constrói com responsabilidade.
/n Fonte: portaldafeira.com.br







