A bola começa a rolar em 11 de junho e, com ela, movimenta-se também uma engrenagem econômica que vai muito além das quatro linhas. A Copa do Mundo de 2026 — realizada pela primeira vez simultaneamente em três países, Estados Unidos, Canadá e México — é o maior torneio da história do futebol: 48 seleções, 104 partidas, 16 cidades-sede e projeção de 6,5 milhões de espectadores ao longo da competição. O Brasil não sedia o evento, mas nem por isso fica de fora da festa econômica.
O que está em jogo no mundo
Antes de olhar para dentro de casa, é preciso entender a dimensão global do que acontece. A previsão é de movimentar US$ 41 bilhões e gerar mais de 800 mil empregos — reforçando como o futebol passou a operar como uma indústria global conectada à mídia, tecnologia, publicidade e consumo digital.
As projeções apontam para US$ 30,5 bilhões em produção bruta e US$ 17,2 bilhões de contribuição ao PIB americano. Para os países-sede, o retorno é direto e volumoso. Para o Brasil, a conta é diferente — mas não por isso irrelevante.
O Bank of America foi além dos números convencionais ao classificar a edição de 2026 como a primeira Copa do Mundo da Inteligência Artificial. As estimativas indicam que mais de 90 petabytes de dados diretos do torneio serão gerados — o equivalente a aproximadamente 90 bilhões de megabytes —, um volume 45 vezes superior ao registrado na última edição da Copa do Mundo.
R$ 4,32 bilhões no varejo: o aquecimento que vem de dentro
Mesmo sem sediar um único jogo, o Brasil responde com força onde mais conhece: o consumo doméstico. A CNC projeta injeção de R$ 4,32 bilhões no varejo nacional, com crescimento real de 6,5% em relação à edição de 2022, puxado por supermercados e consumo de alimentos e bebidas.
O fuso horário joga a favor. A presença do torneio no continente americano reduz a diferença de fuso horário em relação ao Brasil, o que deve favorecer o consumo em tempo real nos lares brasileiros durante os jogos. O aquecimento do varejo, portanto, não deve se concentrar apenas nas vésperas do torneio.
Os dados de comportamento do consumidor confirmam o potencial: a Copa do Mundo de 2026 mudará os hábitos de consumo de 76% dos brasileiros — 34% pretendem mudar costumes e 43% adaptarão gastos conforme a ocasião. Cerca de 83% da população acompanhará o torneio ativamente.
Véspera de jogo vira véspera de compras
O gasto médio por consumidor sobe 24,4%, saltando de R$ 44,55 para R$ 55,44 na véspera dos jogos da Seleção Brasileira. Além disso, o efeito não termina com o apito final: o dia seguinte aos jogos ainda registra alta de até 9,9% no fluxo, prolongando o impacto nas vendas.
Os supermercados lideram o impacto comercial com 47%, seguidos por snacks e bebidas. Refrigerantes (76%) e cervejas (75%) dominam a lista de compras. Um detalhe revela uma mudança de comportamento do consumidor brasileiro: o consumo de refrigerantes sem açúcar cresceu 42%, a cerveja zero álcool avançou 27% e as cervejas leves tiveram alta de 86% no período recente — o consumidor continua comprando para confraternizar, mas passa a incluir opções mais leves no carrinho. Meio e MensagemEconomic News Brasil
A TV como protagonista — e a corrida pelos eletrônicos
Cada Copa tem seu produto-símbolo. Em 2026, a televisão voltou ao centro das atenções. A Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros) projeta aumento de cerca de 20% nas vendas de televisores em comparação com o mesmo período do ano passado, impulsionado pelo evento esportivo. O setor de eletrônicos pode registrar alta de 10% nas vendas anuais.
A preferência é clara: a demanda se volta a televisores acima de 75 polegadas e à consolidação de tecnologias como OLED, QLED e Mini LED. Levantamentos recentes apontam alta superior a 30% nas vendas de modelos acima de 65 polegadas, reforçando a preferência por telas maiores e experiências mais imersivas em casa. Tribuna de Minas
24% dos brasileiros pretendem adquirir novos dispositivos eletrônicos para acompanhar os jogos. A TV ao vivo ainda lidera como principal meio de transmissão, com 84,8% dos torcedores, mas o streaming já alcança 23,1%, mais que o dobro do observado entre os consumidores eventuais.
A outra face da Copa: quem perde com o Mundial longe de casa
A análise honesta do impacto econômico precisa incluir os riscos. E eles existem.
Viajar para assistir à Seleção nos Estados Unidos não é tarefa barata. Com o dólar situado em torno de R$ 5, uma viagem completa para cidades como Los Angeles, Dallas ou Nova York ultrapassa facilmente R$ 20 mil por pessoa, considerando passagem, hospedagem e despesas locais. Isso significa que o dinheiro que em outras edições ficaria no Brasil vai desta vez para a economia americana.
Há ainda um efeito colateral que preocupa o setor de turismo: a ausência dos turistas argentinos. A Argentina é historicamente o principal país emissor de visitantes estrangeiros ao Brasil, respondendo por uma fatia expressiva do turismo receptivo nacional, especialmente nos estados do sul e nas praias do litoral. Com os torcedores argentinos focados em seus próprios jogos nos EUA, o turismo receptivo brasileiro perde um de seus maiores motores sazonais.
Nos dias de partida da Seleção Brasileira, o varejo físico registra queda de 10% a 15% no fluxo de clientes. Esse volume tende a migrar para o canal digital. Central do Varejo
A Copa como vitrine de negócios para marcas brasileiras
Mesmo fora do palco principal, o Brasil tem oportunidade de se projetar. Para o Brasil, o impacto econômico da Copa do Mundo 2026 será indireto, mas estratégico: marcas brasileiras podem aproveitar a atenção mundial para expandir produtos e serviços, abrir novas frentes no turismo e hospitalidade, e se posicionar como fornecedores ou parceiros de campanhas globais.
O efeito financeiro vai além do período dos jogos. Empresas passaram a enxergar a Copa como uma oportunidade de acelerar o posicionamento digital, relacionamento com consumidores e coleta de dados em escala mundial.
O balanço final: Copa aquece, mas não resolve
A Copa do Mundo de 2026 será um impulso real para a economia brasileira — especialmente no varejo, no consumo de alimentos e bebidas e no setor de eletrônicos. Mas o tamanho desse impulso depende de variáveis que estão além do campo: câmbio, juros, crédito e a capacidade das empresas de transformar o entusiasmo do torcedor em receita sustentável.
O Brasil não recebe os turistas do mundo desta vez. Mas recebe, como sempre, o poder de uma nação inteira parada na frente da televisão — e isso, por si só, já vale bilhões.