A cidade alpina francesa de Évian-les-Bains tornou-se, nesta semana, o epicentro da diplomacia global. Os líderes do G7, grupo das sete nações mais ricas do mundo, se reúnem em um resort à beira de um lago na cidade de Évian-les-Bains, na França, para a reunião anual da cúpula que acontece entre os dias 15 e 17 de junho. A escolha do local não é casual: esta será a segunda vez que Évian-les-Bains sedia uma cúpula do G7, tendo recebido anteriormente a 29ª cúpula do G8 em 2003.
O encontro reúne os líderes de Estados Unidos, França, Reino Unido, Alemanha, Japão, Canadá e Itália em um momento de acúmulo de crises. Discutir os próximos passos em relação ao Irã é um dos vários temas que os líderes globais abordam durante a cúpula.
O encontro também busca um consenso sobre a guerra na Ucrânia, o combate aos desequilíbrios econômicos globais e a obtenção de minerais essenciais fora da China, fornecedora dominante.
Trump de volta à Europa — e o fantasma da imprevisibilidade
A confirmação da presença do presidente americano Donald Trump foi tratada pelos organizadores franceses como uma vitória diplomática em si. O encontro no Lago de Genebra foi inclusive ajustado de data para que ele pudesse comemorar seu 80º aniversário nos EUA.
O presidente americano Donald Trump participa do encontro em um momento em que os líderes globais estão cada vez mais cautelosos com os Estados Unidos. Ainda assim, Trump chegou à França em tom de otimismo, impulsionado por um recente acordo preliminar com o Irã.
Donald Trump deu a entender que está pronto para voltar a engajar-se nos esforços para pôr fim à guerra da Rússia na Ucrânia, dizendo aos líderes do G7 reunidos em Évian-les-Bains que Washington vai voltar a centrar-se no conflito, depois de concluir um acordo de princípio com o Irã. "Agora que isto está resolvido, vamos concentrar-nos nisso", afirmou Trump durante uma reunião bilateral com o presidente francês, Emmanuel Macron.
Ucrânia: a principal aposta da cúpula
A guerra na Ucrânia domina os bastidores e as sessões formais da reunião. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (16) que "a Rússia deveria alcançar um acordo" com a Ucrânia, durante a reunião de cúpula do G7 na França, onde seus aliados tentam convencê-lo a apoiar Kiev contra Moscou.
Os aliados do G7 concordaram, durante a sessão de trabalho dedicada à segurança da Europa e da Ucrânia, em aumentar a pressão sobre a Rússia por meio de sanções sobre o gás e o petróleo, a principal fonte de financiamento da guerra de Moscou.
O presidente ucraniano Volodimir Zelensky chegou a Évian com o objetivo de conseguir uma reunião bilateral com Trump. O chefe do governo da Alemanha, Friedrich Merz, falou em tom otimista e acredita que a reunião do G7 "poderia começar a abrir lentamente uma janela para a diplomacia".
Uma cúpula sem declaração final conjunta
Um elemento incomum marca esta edição do G7: diferentemente de outras edições, não há previsão de uma declaração final conjunta assinada pelos sete líderes. A expectativa é que sejam divulgados acordos e posicionamentos específicos sobre temas debatidos ao longo da reunião. A ausência de um documento único reflete as dificuldades de alcançar consenso em um grupo cujos membros têm visões crescentemente divergentes, em especial entre os Estados Unidos e seus aliados europeus.
Lula em Évian: tarifas, multilateralismo e a sombra de Trump
O Brasil não integra o G7, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva marcou presença significativa na cúpula. O presidente Lula participa da cúpula a convite do presidente Emmanuel Macron, tomando parte em sessões de trabalho sobre parcerias internacionais, crescimento econômico e inteligência artificial, além de manter encontros bilaterais. Esta é a sua 10ª participação em cúpulas do G7, marcando o retorno a Évian, onde participou pela primeira vez em 2003.
Mas a visita tem um foco muito concreto. Lula foi ao encontro das sete maiores economias do mundo com uma agenda clara: criticar a proposta americana de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros e defender o multilateralismo em um cenário de crescente pressão comercial dos Estados Unidos. A decisão de participar foi tomada depois que o governo Trump sinalizou a sobretaxa, e o próprio Lula admitiu, em reunião ministerial, que não pretendia ir à cúpula antes disso.
O cenário comercial brasileiro é desafiador. Além das tarifas impostas pelos Estados Unidos, Lula chegou ao G7 em um momento de preocupação com as relações comerciais entre o Brasil e a União Europeia. Na semana passada, o bloco europeu oficializou a decisão de proibir a importação de carnes, tripas, peixes e mel produzidos no Brasil.
Nos bastidores, a questão era se haveria ou não um encontro entre Lula e Trump. Embora não haja reunião bilateral formalmente prevista com o presidente Donald Trump, integrantes do governo não descartam uma conversa informal entre os dois líderes durante o encontro. O governo Trump havia anunciado, em 2 de junho, a conclusão de investigações comerciais que propõem a adoção de tarifas adicionais de 12,5% sobre importações de 59 países, incluindo o Brasil e a União Europeia, por "falha no combate ao uso de trabalho forçado em cadeias produtivas".
O que é o G7 e por que ainda importa
Os países que integram o grupo são, tradicionalmente, as democracias de grande porte mais ricas do mundo — aliados próximos e importantes parceiros comerciais que respondem por uma fatia relevante da economia global. Esses países se reúnem regularmente para discutir temas econômicos e grandes questões de política internacional e, quando chegam a um consenso, podem exercer enorme influência coletiva.
Nesta edição, além dos sete membros fixos, a cúpula de Évian-les-Bains recebe também a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Catar, o Egito, a Índia, o Quênia e a Coreia do Sul como convidados. A participação ampliada reflete a busca por um diálogo mais plural sobre os grandes desafios globais — da guerra à tecnologia, das tarifas ao clima.
A cúpula encerra-se nesta quarta-feira (17). O mundo observa se as conversas à beira do Lago de Genebra serão capazes de produzir mais do que boas intenções diante de um cenário internacional em ebulição.